A intensificação da guerra comercial entre Estados Unidos e China está criando um novo campo de tensão para a economia global. No Brasil, o Banco Central pode precisar rever sua trajetória de política monetária, adotando um tom mais brando, segundo análise do Bradesco.
A projeção da instituição bancária indica que os impactos indiretos sobre preços e atividade econômica interna podem abrir espaço para cortes na taxa Selic, especialmente diante da desaceleração global. A decisão do Copom, marcada para a próxima semana, será vista com atenção redobrada pelo mercado.
O efeito global da guerra comercial nas decisões do Copom
Bradesco prevê possível mudança de rumo no Banco Central
O Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco divulgou um estudo apontando os riscos crescentes gerados pela escalada de tarifas entre EUA e China. Mesmo que a guerra comercial tenha um efeito inflacionário nos Estados Unidos, a realidade pode ser inversa para o Brasil.
Segundo os analistas, a maior oferta de produtos chineses no mercado global deve pressionar os preços para baixo no Brasil, criando uma força desinflacionária que pode ser determinante para o Banco Central adotar uma postura mais branda nos próximos meses.
“O excesso de bens industriais chineses pode suavizar a inflação brasileira, apesar do viés altista no exterior”, destaca o relatório do Bradesco.
Política monetária pode reagir à desaceleração global
A atual projeção do Bradesco prevê que o Copom eleve a taxa Selic para 14,75% ainda neste ciclo. No entanto, com a intensificação do cenário adverso no comércio internacional, os sinais de desaceleração global podem empurrar o Banco Central a interromper esse ciclo em breve.
Para o segundo semestre de 2025, a expectativa é que o cenário mais brando permita iniciar cortes na taxa básica de juros, com a Selic podendo chegar a 11,75% em 2026.
Selic e inflação: o cenário para 2025 e 2026
Estimativas para a economia brasileira
O Bradesco estima crescimento de 1,8% para o PIB brasileiro em 2025, influenciado por dados robustos no início do ano e por fatores externos, como o desvio de comércio provocado pela guerra tarifária.
Além disso, a queda das commodities energéticas e os efeitos do comércio global devem manter o IPCA em 5,6% neste ano, com leve redução para 3,7% em 2026.
Alimentos e combustíveis sob pressão
Enquanto os preços de combustíveis devem recuar, a demanda chinesa por commodities agrícolas pode elevar os preços internos de itens como soja, milho e carnes. Isso poderia pressionar a inflação de alimentos, mesmo com a tendência de queda nos bens industriais.
“O impacto da demanda chinesa pode equilibrar os efeitos desinflacionários em outras frentes”, observa o Bradesco.
Impacto da guerra comercial no dólar e nas exportações
Projeções cambiais indicam real mais fraco
O estudo prevê o dólar chegando a R$ 5,80 até o final de 2025, refletindo um cenário internacional instável e uma possível desaceleração da economia chinesa, o que tende a depreciar o real.
Contudo, o perfil das exportações brasileiras para a China hoje é menos sensível ao ciclo econômico, o que pode reduzir os impactos negativos sobre a balança comercial.
Incerteza histórica e tarifas sem precedentes
Suspensões e retaliações dificultam previsões
A guerra tarifária elevou as tarifas médias ponderadas dos EUA de menos de 5% para 30%, mesmo com suspensões temporárias. Isso aumenta a incerteza sobre o comércio internacional.
A reação da China, com tarifas que chegaram a 125% para produtos americanos, adiciona uma camada extra de imprevisibilidade à economia global.
Setores mais afetados pela política tarifária
Enquanto produtos como semicondutores e eletrônicos chineses estão temporariamente isentos, setores como aço, automóveis e alimentos estão entre os mais afetados. A alta das tarifas pode comprometer o desempenho de empresas e a confiança dos investidores.
Projeções para os EUA: estagnação e inflação elevada
Efeitos duplos da guerra tarifária nos EUA
O Bradesco revisou sua previsão de crescimento do PIB dos EUA de 2,0% para zero neste ano. Ao mesmo tempo, o núcleo da inflação subiu para 3,6%, demonstrando um cenário de estagflação.
A elevação das tarifas deve afetar diretamente os custos de produção, com impacto sobre margens de lucro e preços ao consumidor. A redução na confiança e nos investimentos deve atingir a economia americana nos próximos trimestres.
Federal Reserve entre inflação e recessão
O Fed pode se ver diante de uma difícil escolha: combater a inflação com juros altos ou reagir à recessão com cortes. O Bradesco prevê dois cortes de juros nos EUA ainda em 2025, após meses de observação cautelosa do cenário.
Efeitos colaterais no PIB global e nas principais economias
Crescimento global será impactado
As projeções do banco apontam que o PIB global deve cair de 3,1% para 2,3%, refletindo o impacto da guerra comercial e o recuo nos investimentos industriais. Esse cenário é visto como o maior risco econômico desde a pandemia.
A Europa deve sofrer uma redução de 0,4 p.p. no crescimento, enquanto a China, principal afetada pelas tarifas, pode ver seu PIB desacelerar em 1 ponto percentual.
“O impacto global ainda é moderado, mas pode se intensificar rapidamente caso novas disputas comerciais surjam”, adverte o relatório.
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Um novo desafio para o Banco Central
A combinação entre desaceleração global, guerra comercial e pressões inflacionárias cria um quadro complexo para a política monetária brasileira. O Banco Central precisará equilibrar o combate à inflação com os impactos externos que podem prejudicar a atividade econômica.
A Selic ainda pode subir no curto prazo, mas há crescente espaço para cortes no fim do ano, caso a inflação se mostre controlada e a desaceleração global se confirme. O estudo do Bradesco deixa claro que, mais do que nunca, o Copom terá que agir com cautela, monitorando atentamente cada movimento do cenário internacional.