O Brasil enfrenta uma verdadeira epidemia de adoecimento mental no ambiente de trabalho. Em 2024, cerca de 470 mil trabalhadores foram afastados por transtornos mentais, como depressão, ansiedade e síndrome do pânico, de acordo com dados divulgados pela Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro).
O alerta foi feito por Pedro Tourinho, presidente da instituição, durante entrevista ao programa Conexão BdF, do Brasil de Fato, no Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, celebrado em 28 de abril.
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O que está causando o adoecimento no ambiente de trabalho?

Pressão excessiva e metas inalcançáveis
De acordo com Tourinho, os principais fatores responsáveis pelo adoecimento mental incluem:
- Metas inalcançáveis e cobrança constante de produtividade;
- Assédio moral e relações tóxicas no ambiente de trabalho;
- Jornadas extensas e exaustivas, muitas vezes sem pausas adequadas;
- Falta de clareza nas tarefas e sobrecarga de responsabilidades.
“A pressão que massacra o trabalhador hoje está relacionada à cobrança de metas irreais, baixa clareza nas tarefas do processo de trabalho e assédio frequente”, declarou Tourinho.
Retrocessos nas políticas de proteção ao trabalhador
O impacto das reformas trabalhistas
Segundo o presidente da Fundacentro, a situação atual é consequência de escolhas políticas adotadas nos últimos anos. Entre 2016 e 2022, sob os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, houve um desmonte sistemático das normas de segurança e saúde do trabalho.
Durante esse período, diversas normas regulamentadoras (NRs) foram flexibilizadas, o que, segundo especialistas, contribuiu diretamente para o crescimento de práticas nocivas nos ambientes de trabalho.
A informalidade como obstáculo à proteção
Além da flexibilização das regras, a alta taxa de informalidade no Brasil contribui para a subnotificação de casos e dificulta a fiscalização. Trabalhadores informais, que muitas vezes enfrentam condições precárias, não contam com a mesma proteção legal e estatística.
Dados alarmantes: acidentes de trabalho em alta
Em 2024, o país também registrou aproximadamente 740 mil acidentes de trabalho, com 2.400 mortes contabilizadas. No entanto, Tourinho alerta que os números reais podem ser ainda maiores.
“Estamos diante de uma subnotificação grave. Muitos casos, especialmente na informalidade, não chegam aos registros oficiais”, afirmou.
Efeitos das mudanças climáticas sobre o trabalho
Calor extremo e trabalho ao ar livre
Outro fator agravante apontado por especialistas são as mudanças climáticas. Profissões que exigem trabalho ao ar livre, como as ligadas ao agronegócio e à construção civil, tornaram-se ainda mais perigosas em determinadas épocas do ano.
“Com o aumento das temperaturas, o risco de exaustão física e morte por calor é crescente, principalmente em lavouras e canteiros de obras”, explicou Tourinho.
O exemplo mais evidente é o dos trabalhadores do setor sucroalcooleiro, onde já foram relatados diversos óbitos por exaustão nos canaviais. Esse cenário tende a se agravar e a se estender para outros setores.
A urgência da reconstrução das políticas de saúde e segurança
Reforço na Fundacentro e sinal positivo do governo federal
Em meio a esse cenário de crise, Tourinho celebrou o anúncio de 65 novas vagas autorizadas em concurso público para a Fundacentro, depois de mais de uma década sem reposição de quadros.
“Esse é um gesto concreto de reconstrução das políticas públicas voltadas à segurança e saúde do trabalhador”, destacou.
A reestruturação da Fundacentro é considerada fundamental para o desenvolvimento de políticas de prevenção, pesquisa e orientação para empresas e trabalhadores em todo o Brasil.
O papel da saúde mental no desenvolvimento do país
Trabalho digno como caminho para justiça social
A discussão sobre saúde mental no trabalho também envolve justiça social e dignidade humana. Para Tourinho, o trabalho é um espaço que deveria promover realização pessoal, e não sofrimento.
“É onde conquistamos nossos sonhos, mas também onde muitos vivem violência e silêncio. A saúde do trabalhador deve ser prioridade de qualquer governo que se diga comprometido com o povo”, concluiu.
Caminhos para a mudança: o que precisa ser feito?

Medidas urgentes recomendadas por especialistas
Para enfrentar a crise de saúde mental no trabalho, especialistas defendem uma série de medidas estruturantes:
Fortalecimento das políticas públicas
- Retomada e ampliação das Normas Regulamentadoras (NRs);
- Fortalecimento de órgãos como a Fundacentro e o Ministério do Trabalho;
- Fiscalização ativa e punição de práticas abusivas.
Promoção de ambientes saudáveis
- Incentivo à criação de programas de saúde mental nas empresas;
- Estímulo ao respeito aos direitos trabalhistas e à equidade de gênero e raça no ambiente laboral;
- Implementação de políticas de acolhimento e canais de denúncia de assédio.
Educação e conscientização
- Campanhas públicas sobre valorização do trabalho digno;
- Inclusão da saúde mental como tema prioritário em programas de capacitação;
- Parcerias com universidades para pesquisa e inovação em segurança do trabalho.
Conclusão: a urgência de repensar o mundo do trabalho
O Brasil vive um momento decisivo em relação à saúde do trabalhador. O crescimento dos casos de transtornos mentais, aliado à precarização das relações de trabalho e à crise climática, exige respostas imediatas por parte do Estado e da sociedade civil.
O caminho para a solução passa pela reconstrução das políticas públicas, pela valorização do trabalhador e pela criação de ambientes laborais saudáveis, seguros e justos.
Imagem: Freepik




