Uma dúvida comum entre microempreendedores individuais (MEI) é se começar a contribuir com uma alíquota maior — passando dos atuais 5% para 20% — pode aumentar o valor da aposentadoria.
No caso da leitora Patrícia Lopes, de Santa Cruz, que é MEI desde 2016 e sempre pagou o valor mínimo, a resposta exige atenção: o tempo já contribuído com 5% não aumenta automaticamente o valor do benefício, mesmo que ela comece a complementar agora.
Isso ocorre porque a forma de contribuição do MEI tem regras específicas dentro da Previdência Social.
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Como funciona a contribuição do MEI hoje
O MEI contribui mensalmente com 5% sobre o salário mínimo, por meio do DAS (Documento de Arrecadação do Simples Nacional). Essa contribuição garante acesso a benefícios como:
- Aposentadoria por idade
- Auxílio-doença
- Salário-maternidade
- Pensão por morte
No entanto, há uma limitação importante.
Restrição principal
Quem contribui apenas como MEI:
- Não tem direito à aposentadoria por tempo de contribuição
- Fica restrito à aposentadoria por idade (62 anos mulher / 65 anos homem)
O que muda ao complementar para 20%
Ao complementar a contribuição com mais 15% (totalizando 20%), o segurado passa a ter acesso a outras modalidades de aposentadoria.
Principais vantagens da complementação:
- Possibilidade de usar o tempo para regras de transição
- Direito à aposentadoria antes da idade mínima (dependendo do caso)
- Ampliação das opções de planejamento previdenciário
Por outro lado, existe um ponto crucial que gera confusão.
Complementar não aumenta automaticamente o valor
Mesmo pagando os 20%, o salário de contribuição continua sendo o salário mínimo, a menos que o segurado passe a contribuir por outra categoria com valores maiores.
Ou seja:
- A complementação muda o tipo de aposentadoria possível
- Mas não aumenta o valor do benefício por si só
O tempo antigo como MEI pode ser aproveitado?
Sim, mas com uma condição importante.
O tempo pago com a alíquota reduzida (5%):
- Conta normalmente para aposentadoria por idade
- Não conta para aposentadoria por tempo ou regras de transição, a menos que seja complementado
Como aproveitar esse tempo para outras regras
Para que os períodos antigos como MEI sejam considerados em modalidades mais vantajosas, é necessário:
- Fazer a complementação mês a mês (pagando os 15% restantes)
- Regularizar os períodos que deseja utilizar
Esse processo é chamado de complementação retroativa.
Vale a pena complementar agora?
A resposta depende do seu objetivo previdenciário.
Pode valer a pena se você quer:
- Se aposentar antes da idade mínima
- Aproveitar regras de transição
- Ter mais flexibilidade na aposentadoria
Pode não valer a pena se:
- Você já pretende se aposentar apenas por idade
- Está próximo da idade mínima
- Não terá tempo suficiente para atingir regras mais vantajosas
Exemplo prático (realista)
Imagine uma mulher de 49 anos, MEI desde 2016:
- Já tem cerca de 10 anos de contribuição
- Faltam pelo menos 13 anos para atingir 62 anos
Se ela complementar agora:
- Pode tentar atingir regras de transição
- Mas precisa analisar se conseguirá cumprir os requisitos a tempo
Caso contrário, ela pode acabar pagando mais sem ganho real no benefício.
Atenção antes de complementar
Especialistas em Direito Previdenciário alertam que a decisão deve ser estratégica.
Pontos que devem ser avaliados:
- Tempo total de contribuição já acumulado
- Idade atual
- Possibilidade de cumprir regras de transição
- Capacidade financeira para pagar a complementação
- Simulações de benefício
Alternativa para aumentar o valor da aposentadoria
Se o objetivo for aumentar o valor do benefício, apenas complementar para 20% pode não ser suficiente.
Outras estratégias:
- Contribuir como autônomo com valor maior que o mínimo
- Fazer planejamento previdenciário
- Avaliar contribuições em atraso (quando permitido)
- Diversificar renda para aposentadoria (ex: previdência privada)
Como fazer a complementação do MEI
A complementação deve ser feita por meio de uma guia adicional ao DAS.
Passo a passo básico:
- Identificar os meses que deseja complementar
- Emitir a guia de complementação (GPS)
- Pagar a diferença de 15% sobre o salário mínimo
- Guardar comprovantes
O ideal é realizar esse processo com orientação especializada para evitar erros.
Conclusão
Complementar a contribuição do MEI para 20% pode abrir portas para novas formas de aposentadoria, mas não aumenta automaticamente o valor do benefício.
O tempo antigo como MEI pode, sim, ser aproveitado — desde que seja complementado corretamente. No entanto, essa decisão precisa ser tomada com base em planejamento previdenciário, para evitar gastos desnecessários.
Antes de começar a pagar mais, o recomendável é simular cenários e entender se haverá ganho real no seu caso.



