A participação das mulheres no mercado de trabalho brasileiro atingiu um novo patamar em 2024, alcançando 40,6% da população ocupada. Esse avanço, no entanto, ainda não se traduz em igualdade de remuneração entre os gêneros.
Segundo o terceiro Relatório de Transparência Salarial, divulgado pelo Governo Federal, as mulheres continuam ganhando, em média, 20,9% a menos que os homens. O estudo, baseado em dados da RAIS, envolveu 53.014 estabelecimentos com 100 ou mais empregados.
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Mulheres no trabalho: Desigualdade persistente nos números
Diferença de média salarial
Os homens recebem, em média, R$ 4.745,53. Já as mulheres têm remuneração média de R$ 3.755,01. A disparidade é ainda mais evidente no recorte racial: mulheres negras recebem apenas R$ 2.864,39. Essa diferença não apenas revela desigualdade, mas também perpetua ciclos de vulnerabilidade econômica.
Impacto na economia
Estudos apontam que, se houvesse paridade salarial, aproximadamente R$ 95 bilhões seriam adicionados à economia brasileira. Esse dado reforça que a igualdade de gênero não é apenas uma demanda social, mas também uma estratégia de desenvolvimento econômico.
Evolução dos relatórios e estagnação das mudanças
Desde o primeiro relatório, em março de 2024, a desigualdade salarial cresceu: passou de 19,4% para 20,9% em novembro. Mesmo com o aumento da presença feminina, o fosso salarial se amplia, o que demonstra que a ocupação não garante valorização.
Francisco Macena, do MTE, declarou que “a presença das mulheres aumentou, mas sem o devido reconhecimento salarial. Precisamos revisar as estruturas que sustentam essa desigualdade”.
A presença feminina e a invisibilidade salarial
Mulheres negras em crescimento
A presença de mulheres negras no mercado formal subiu 18,2% em um ano, saltando de 3,2 milhões para 3,8 milhões. No entanto, o aumento na ocupação não trouxe ganhos salariais equivalentes. Elas continuam sendo as mais afetadas pelas desigualdades interseccionais.
Representatividade nas empresas
Houve redução no número de empresas com menos de 10% de mulheres negras — de 21.680 em 2023 para 20.452 em 2024. Além disso, aumentou o número de estabelecimentos onde a diferença salarial entre gêneros é de até 5%, um indicativo positivo, embora modesto.
Distribuição da massa salarial
Participação na remuneração total
Entre 2015 e 2024, a participação feminina na massa salarial cresceu de 35,7% para 37,4%. A estagnação nesse avanço revela que, embora mais mulheres estejam trabalhando, continuam sendo remuneradas com valores consideravelmente menores.
Crescimento da ocupação
Atualmente, há 44,8 milhões de mulheres ocupadas, contra 38,8 milhões em 2015. Para os homens, esse número saltou de 53,5 milhões para 59 milhões. Ainda que os dados mostrem evolução, a diferença de oportunidades e valorização persiste.
Diferenças por função e estado
Ocupações com maior desigualdade
A diferença salarial é evidente em quase todas as áreas. Mulheres em cargos de direção e gerência recebem apenas 73,2% do que os homens. Entre profissionais com nível superior, essa proporção cai para 68,5%. Já nos serviços administrativos, o percentual sobe para 79,8%, mas ainda é insuficiente.
Desigualdade regional
Os estados com menor desigualdade salarial são: Pernambuco (9,14%), Acre (9,86%), Distrito Federal (9,97%), Piauí (10,04%), Ceará (10,21%) e Alagoas (10,29%). Já os estados com os maiores índices de disparidade incluem: Paraná (28,54%), Espírito Santo (28,53%), Santa Catarina (27,96%) e Rio de Janeiro (27,82%).
Ações e políticas públicas para reversão do quadro
Guia para Negociação Coletiva
Como parte do esforço de combate à desigualdade, o Governo Federal lançou o Guia para Negociação Coletiva. O material orienta empresas e sindicatos sobre boas práticas e ações concretas para enfrentar a disparidade de gênero nas relações de trabalho.
Movimento pela Igualdade no Trabalho
O Governo também apresentou o Movimento pela Igualdade no Trabalho, iniciativa que reúne empresas, sindicatos e sociedade civil em torno de compromissos reais com a equidade. Diversas organizações de peso já aderiram, como a Febraban e a Confederação Nacional da Indústria.
Legislação e fiscalização ativa
Lei nº 14.611/2023
Essa legislação promove a igualdade salarial entre homens e mulheres e determina obrigações às empresas com mais de 100 funcionários. Além da transparência nas remunerações, a lei exige canais de denúncia e programas de diversidade e inclusão.
Plano Nacional de Igualdade
O Plano Nacional de Igualdade Salarial e Laboral entre Mulheres e Homens articula 10 ministérios e prevê R$ 17 bilhões em investimentos até 2027. Seu objetivo principal é assegurar condições iguais de permanência e ascensão profissional para as mulheres.

Apesar do avanço na participação feminina no mercado de trabalho, os números confirmam que a desigualdade salarial ainda é regra, não exceção. A diferença de remuneração, além de injusta, compromete o crescimento econômico e a justiça social.
A atuação do Governo, com novas políticas, guias e legislação, representa um passo importante, mas não é suficiente. É essencial que o setor privado, os sindicatos e a sociedade civil atuem juntos na promoção de um ambiente profissional mais justo, plural e igualitário. A igualdade de gênero no trabalho precisa sair do discurso e entrar na prática.




