O processo para obter a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) no Brasil pode passar por mudanças significativas, trazendo um novo modelo de avaliação que promete alterar a forma como os candidatos se preparam para dirigir. A proposta do Ministério dos Transportes e da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) para a CNH sem autoescola prevê ajustes no exame prático, incluindo a criação de um sistema de pontuação positiva e mudanças na exigência das aulas de direção.
Entre as principais novidades, está a possibilidade de o candidato agendar o exame prático sem necessidade de cumprir uma carga mínima de aulas em autoescolas, utilizando seu próprio veículo e instrutor credenciado. O objetivo do governo é simplificar o processo, reduzir custos e oferecer mais autonomia, mas especialistas alertam para riscos relacionados à segurança viária e à formação adequada dos futuros motoristas.
Como funciona atualmente o exame prático da CNH
Hoje, os candidatos à primeira habilitação precisam cumprir uma carga horária mínima de 20 horas-aula nas categorias A (moto) e B (carro), conforme determina a Resolução nº 789/2020 do Contran. Todas as aulas devem ser realizadas em Centros de Formação de Condutores (CFC), com instrutores credenciados e veículos de aprendizagem.
O exame prático funciona com base em faltas negativas. Elas são classificadas em leves, médias, graves ou eliminatórias, e a soma de pontos negativos ou a ocorrência de uma falta eliminatória resulta na reprovação. Entre os exemplos de erros eliminatórios estão avançar o sinal vermelho, desrespeitar a sinalização e subir na calçada. Caso seja reprovado, o candidato precisa remarcar a prova, pagar nova taxa e aguardar disponibilidade.
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O novo sistema de pontuação proposto para a CNH sem autoescola
A proposta em discussão apresenta um modelo diferente: o candidato inicia o exame com 100 pontos, e erros diminuem a pontuação de acordo com a gravidade.
- Falta leve: desconto de 10 pontos
- Falta média: desconto de 20 pontos
- Falta grave: desconto de 30 pontos
- Falta gravíssima: desconto de 40 pontos
A reprovação na CNH ocorrerá se a pontuação final for inferior a 70 ou se o candidato cometer falhas críticas, como colisão, avanço de sinal vermelho ou condução perigosa. Uma novidade adicional é a possibilidade de refazer a prova no mesmo dia, caso haja disponibilidade de examinadores e veículos, evitando a necessidade de remarcar.
Comparação entre o modelo atual e a proposta
| Aspecto | Situação atual | Proposta |
|---|---|---|
| Aulas práticas | Obrigatórias: 20 horas mínimas para categorias A e B | Opcionais: candidato pode agendar exame direto |
| Treinamento com instrutor | Somente em CFC, com veículo de aprendizagem | Pode ser feito com instrutor particular e veículo próprio |
| Avaliação | Baseada em faltas negativas | Pontuação inicial positiva com descontos por erros |
| Nova tentativa | Precisa remarcar e pagar nova taxa | Pode ocorrer no mesmo dia, se houver disponibilidade |
| Prazo de validade | 12 meses | Não definido |
| Papel do CFC | Central na formação do candidato | Opcional, podendo haver outros fornecedores de conteúdo teórico |
A flexibilização das aulas práticas na CNH sem autoescola
Um dos pontos mais debatidos é a retirada da obrigatoriedade das aulas em CFC. De acordo com a proposta, os candidatos poderão treinar com instrutor credenciado particular ou, se preferirem, agendar o exame sem qualquer treinamento formal. A Licença de Aprendizagem de Direção Veicular (LADV) continuará sendo exigida apenas para quem optar por treinar em vias públicas antes do exame.
A justificativa do governo para essa mudança é dar mais liberdade ao candidato, reduzir gastos com autoescolas e simplificar o processo de habilitação. No entanto, a medida levanta preocupações sobre a efetividade do aprendizado e a segurança nas vias.
Avaliação dos especialistas em trânsito
Especialistas em segurança viária veem o novo sistema de pontuação da CNH como um avanço em termos de transparência e objetividade, mas alertam para riscos importantes. Celso Mariano, diretor do Portal do Trânsito, questiona como garantir que o candidato tenha realmente aprendido a dirigir sem aulas obrigatórias.
Ele destaca que, embora a intenção seja reduzir custos da CNH, o efeito prático pode ser o contrário. Candidatos despreparados podem reprovar várias vezes, aumentando despesas com taxas e deslocamentos, e ainda gerar impactos negativos no trânsito devido à falta de treinamento adequado.
Além disso, a experiência em CFC proporciona contato direto com situações reais de trânsito, o que ajuda na construção de habilidades técnicas e comportamentais essenciais. Retirar essa etapa pode comprometer a formação de motoristas qualificados e aumentar riscos de acidentes.
Impactos esperados no exame prático da CNH sem autoescola
Caso a proposta seja implementada, especialistas antecipam um aumento no número de reprovações iniciais, já que muitos candidatos podem não estar preparados para dirigir de forma segura. A pontuação positiva e a possibilidade de repetir a prova no mesmo dia podem suavizar esse efeito, permitindo que erros sejam corrigidos imediatamente.
A longo prazo, será fundamental acompanhar o desempenho dos candidatos, a incidência de reprovações e dados sobre segurança viária. A análise desses indicadores ajudará a definir se a flexibilização realmente traz benefícios ou apenas altera a forma de avaliação sem melhorar a preparação dos motoristas.
Consulta pública e posicionamento das entidades
O período de consulta pública da minuta de resolução terminou em 2 de novembro. Durante esse período, entidades de autoescolas, instrutores e especialistas se posicionaram contrariamente à retirada da obrigatoriedade das aulas. Eles afirmam que a mudança enfraquece a formação técnica, compromete a qualidade do exame e pode impactar a segurança no trânsito.
Segundo Mariano, o debate deve ser orientado por dados concretos, incluindo estatísticas de reprovação, causas de acidentes e eficiência pedagógica. A modernização do exame é necessária, mas deve preservar a segurança e a qualidade da formação de motoristas.
Considerações finais
A proposta de reformulação do exame prático da CNH apresenta mudanças relevantes, como a pontuação positiva e a flexibilização das aulas práticas. O objetivo é oferecer mais autonomia ao candidato e reduzir burocracia, mas especialistas alertam que isso não pode ocorrer às custas da segurança.
É fundamental que cidadãos, instrutores e legisladores acompanhem de perto os impactos dessas mudanças, garantindo que o processo de habilitação continue formando motoristas preparados, conscientes e seguros no trânsito.
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