O modelo de contratação de pessoas jurídicas (PJ) tem gerado grande preocupação entre economistas e especialistas no Brasil. Um estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) apontou que o uso crescente desta modalidade entre trabalhadores pode resultar em um rombo bilionário nos cofres públicos, que pode alcançar até R$ 144 bilhões. Este estudo reflete não apenas em termos econômicos, mas também nas condições de trabalho e na precarização de direitos fundamentais dos trabalhadores.
Nos últimos anos, a tendência de empresas optarem pela contratação de profissionais como PJs, ao invés de formalizar vínculos empregatícios via a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), tem gerado uma redução expressiva na arrecadação tributária. Além disso, o modelo tem comprometido direitos trabalhistas essenciais, como férias, 13º salário e o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), impactando também no futuro financeiro de muitos trabalhadores, especialmente em termos de aposentadoria.
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O impacto financeiro da pejotização nos cofres públicos
Entre 2018 e 2023, a substituição de contratos CLT por contratos PJ gerou uma perda significativa na arrecadação pública, com estimativas que variam entre R$ 89 bilhões e R$ 144 bilhões. Essa discrepância nos valores ocorre devido aos diferentes cenários considerados no estudo da FGV, que leva em conta diversos critérios para calcular o impacto de cada modelo de contratação.
No regime CLT, as empresas são obrigadas a recolher tributos e encargos trabalhistas de maneira integral, garantindo direitos como o pagamento de férias, o 13º salário, o FGTS e contribuições para a Seguridade Social. Por outro lado, no modelo PJ, a tributação é consideravelmente mais baixa, o que resulta em uma significativa redução na contribuição para a Seguridade Social e, consequentemente, na arrecadação pública.
Diferenças entre a tributação de CLT e PJ
Os trabalhadores que atuam como PJ, seja como microempreendedores individuais (MEI) ou optantes pelo Simples Nacional, pagam impostos consideravelmente menores do que os trabalhadores sob o regime CLT. Em 2023, por exemplo, trabalhadores PJ contribuíram, em média, com cerca de R$ 4 mil ao ano, considerando os impostos pagos como MEI ou empresa no Simples Nacional. Caso tivessem sido contratados sob o regime CLT, esses mesmos profissionais teriam contribuído entre R$ 21 mil e R$ 33 mil, com base nas contribuições obrigatórias e encargos trabalhistas.
Essa diferença de contribuição representa uma perda significativa de arrecadação para o Estado, especialmente quando se considera o alto número de trabalhadores que migraram para o regime PJ nos últimos anos.
Consequências da pejotização para os direitos trabalhistas
Além da queda na arrecadação, o modelo de contratação como PJ também tem gerado grandes consequências para os direitos trabalhistas dos profissionais. A pejotização, termo utilizado para se referir à crescente adoção de contratos PJ em substituição ao modelo CLT, elimina a garantia automática de direitos como férias, 13º salário e FGTS.
No regime CLT, os direitos dos trabalhadores são garantidos por legislação e são obrigatoriamente pagos pelas empresas. Já os trabalhadores PJ, embora possuam a liberdade de trabalhar de forma autônoma, não têm essas garantias legais, o que os coloca em uma posição mais vulnerável.
Além disso, a falta de vínculo empregatício enfraquece o poder de negociação coletiva dos trabalhadores. Quando organizados em sindicatos, os trabalhadores podem negociar melhores condições de trabalho, mas no modelo PJ, onde cada indivíduo é responsável pela negociação, essa força coletiva se dissipa. Isso pode levar à precarização das condições de trabalho, sem que os profissionais tenham garantias suficientes de proteção.
O impacto na aposentadoria dos trabalhadores PJ
Outro ponto crucial apontado pelo estudo da FGV é o impacto da pejotização nas aposentadorias dos trabalhadores. No caso dos microempreendedores individuais (MEIs), a contribuição previdenciária é reduzida a 5% do salário mínimo, o que garante um benefício de aposentadoria no valor de apenas um salário mínimo, independentemente da renda do trabalhador.
Mesmo que o profissional tenha um rendimento mensal de R$ 6 mil ou mais, como no caso de muitos MEIs, ele continuará a receber uma aposentadoria no valor do piso nacional, por causa da baixa contribuição ao sistema previdenciário. Essa realidade pode comprometer seriamente o futuro financeiro desses trabalhadores, que, apesar de terem uma boa renda enquanto estão em atividade, podem enfrentar sérias dificuldades financeiras na aposentadoria.
Aumento da sobrecarga nos serviços públicos
A pejotização não afeta apenas a arrecadação e os direitos trabalhistas. Ela também gera uma sobrecarga para os serviços públicos, já que muitos trabalhadores PJ, ao não contar com benefícios como plano de saúde ou seguro-desemprego, acabam recorrendo aos serviços públicos em busca de assistência quando enfrentam problemas de saúde ou outras dificuldades. Essa dependência dos serviços públicos pode resultar em um aumento das despesas para o Estado, que, por sua vez, deixa de arrecadar uma quantia significativa com tributos de contratos CLT.
Além disso, a ausência de garantias previdenciárias mais robustas para os trabalhadores PJ pode resultar em uma maior demanda por assistência social no futuro, o que sobrecarrega ainda mais as finanças públicas e diminui a eficiência do sistema de seguridade social.
O futuro da pejotização: desafios e perspectivas
O modelo de contratação PJ tem se expandido nos últimos anos, principalmente devido à flexibilização das leis trabalhistas e ao crescimento do empreendedorismo no país. Embora ofereça maior liberdade para os trabalhadores e empregadores, ele também impõe desafios significativos, tanto para os profissionais envolvidos quanto para os cofres públicos.
Em um cenário em que a arrecadação tributária já é um problema no Brasil, a crescente migração para o regime PJ pode agravar ainda mais as finanças do Estado. Além disso, a precarização das condições de trabalho e a redução das garantias previdenciárias para os trabalhadores podem gerar uma insustentabilidade no futuro, com uma população cada vez mais dependente do sistema de seguridade social.

O estudo da FGV destaca a urgência de repensar a forma como o Brasil lida com a pejotização e seus impactos financeiros e sociais. Embora o modelo de contratação como PJ tenha benefícios imediatos tanto para empresas quanto para trabalhadores, seus efeitos a longo prazo podem ser devastadores para os cofres públicos e para os próprios profissionais. A perda de direitos trabalhistas e a precarização das aposentadorias são apenas alguns dos desafios que precisam ser enfrentados.
É fundamental que o governo e as empresas repensem esse modelo, buscando alternativas que conciliam a liberdade do trabalhador com a garantia de seus direitos essenciais, evitando assim um comprometimento futuro da seguridade social e das finanças públicas.




