O mercado de crédito brasileiro passa por uma transformação que afeta diretamente trabalhadores com carteira assinada. O chamado consignado privado, modalidade de empréstimo com desconto direto no salário, deixou de ser uma alternativa pontual e passou a ocupar espaço relevante no orçamento de muitas famílias.
Dados recentes indicam que o volume de empréstimos nessa modalidade cresceu de forma expressiva em 2025.
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O total liberado alcançou R$ 54,5 bilhões, um salto de 183,6% em relação ao ano anterior.
A tendência deve continuar em expansão. Projeções apontam que, em 2026, o montante pode chegar a R$ 120 bilhões, beneficiando aproximadamente 19 milhões de trabalhadores formais.
Esse crescimento tem sido acompanhado de perto pelo Banco Central do Brasil, que monitora os efeitos do crédito no endividamento das famílias.
Por que o consignado virou uma saída para muitos trabalhadores
A expansão do consignado privado está ligada principalmente ao aumento do custo de vida.
Com despesas essenciais como alimentação, energia elétrica e aluguel pressionando o orçamento doméstico, muitos trabalhadores recorrem ao crédito para equilibrar as contas.
Para quem já possui dívidas mais caras, como o cartão de crédito rotativo, o consignado surge como uma alternativa menos onerosa.
Enquanto o rotativo do cartão pode ultrapassar 450% ao ano, os juros médios do consignado privado giram em torno de 51,1% ao ano.
Na prática, trocar uma dívida de cartão por um consignado pode reduzir significativamente o custo financeiro.
Contratação digital facilitou o acesso ao crédito
Outro fator que impulsiona o crescimento dessa modalidade é a facilidade de contratação.
O que antes exigia comparecimento presencial ao banco agora pode ser feito pelo celular.
Por meio do programa Crédito do Trabalhador, o empréstimo pode ser contratado diretamente pelo aplicativo da Carteira de Trabalho Digital.
Nesse modelo, o processo ocorre com poucos cliques e análise automática de crédito.
Essa agilidade, no entanto, também tem levantado preocupações entre especialistas.
Endividamento pode crescer após a contratação
Estudos indicam que o acesso rápido ao crédito pode provocar aumento imediato no nível de endividamento.
Dados analisados pelo Banco Central mostram que o endividamento do trabalhador costuma subir cerca de 58% no primeiro mês após receber o empréstimo.
Isso ocorre porque o valor das parcelas é descontado diretamente do salário.
O limite atual permite comprometer até 35% do salário líquido com o consignado.
Como resultado, o trabalhador passa a receber mensalmente um valor menor do que estava acostumado.
Em alguns casos, isso pode levar à contratação de novas dívidas para cobrir despesas do dia a dia.
FGTS pode ser usado como garantia
Um dos pontos mais delicados do consignado privado envolve o uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço como garantia da operação.
Pelas regras atuais, os bancos podem reter:
- até 10% do saldo total do FGTS
- até 100% da multa rescisória de 40% em caso de demissão sem justa causa
Isso significa que parte da reserva financeira do trabalhador pode ser usada automaticamente para quitar a dívida.
Na prática, o fundo que deveria servir como proteção durante o desemprego pode ser consumido pelo pagamento do empréstimo.
Especialistas alertam para riscos financeiros
Economistas e especialistas em finanças pessoais alertam que o consignado, apesar de mais barato que outras linhas de crédito, não deixa de ser uma dívida.
Quando usado sem planejamento, pode comprometer a renda futura do trabalhador.
O desconto automático no salário reduz o valor disponível para despesas básicas.
Isso pode gerar um ciclo de endividamento, especialmente para famílias com orçamento já apertado.
Lei do superendividamento protege consumidores
Para enfrentar situações em que o endividamento se torna insustentável, a legislação brasileira prevê mecanismos de proteção ao consumidor.
Um deles é a Lei do Superendividamento.
Essa lei permite que consumidores que não conseguem pagar suas dívidas sem comprometer despesas essenciais solicitem renegociação coletiva com os credores.
O objetivo é garantir o chamado mínimo existencial, assegurando que o cidadão tenha recursos suficientes para necessidades básicas como moradia, alimentação e saúde.
Como usar o consignado de forma segura
Especialistas recomendam alguns cuidados antes de contratar esse tipo de crédito.
Entre eles estão:
- avaliar se a parcela cabe no orçamento
- comparar juros entre instituições financeiras
- evitar usar o crédito para despesas recorrentes
- priorizar a quitação de dívidas mais caras
O consignado pode ser uma ferramenta útil quando utilizado para reorganizar a vida financeira.
Porém, o uso frequente ou impulsivo pode gerar dificuldades no longo prazo.
Conclusão
O consignado privado vem ganhando espaço no mercado de crédito brasileiro e se consolidando como uma das principais formas de financiamento para trabalhadores com carteira assinada.
Apesar das taxas menores em comparação com outras modalidades, o crescimento acelerado da contratação acende um alerta sobre os riscos de endividamento.
Planejamento financeiro e análise cuidadosa das condições do empréstimo são essenciais para evitar que o crédito, inicialmente pensado como solução, se transforme em um problema maior no futuro.



